vendredi 3 avril 2009

A PRESSA


Fui feito à pressa
Numa fria noite de Maio
- Ou seria Junho? -
Minha mãe
Crispou-se num desmaio
Cerrou o punho
E meu pai ejaculou depressa!
No céu a lua se apressava
No horizonte o sol já despontava
Rasteiro medrava o abrunho
O abrunho rasteiro medrava!
Ainda não tinha peito
Ainda não tinha jeito
De mim não era que o rascunho
E já sonhava!

Logo que a luz se apagou
Pus-me logo a correr
Muito depressa a germinar
Muito depressa a crescer
Para o tempo não perder
O tempo não desperdiçar!
E quando Fevereiro chegou
- Logo no segundo dia -
Minha mãe me pariu
Minha mãe cortou
O cordão que nos unia
O cordão que nos uniu!
Ao longe um galo cantou!
Junto a mim meu pai me sorria
E o tempo logo começou
Na minha porta a bater
E sem perca de tempo
Pus-me logo a viver!

Mamei depressa
Dormi depressa
Chorei depressa
Depressa as fraldas sujei!
Abri os olhos depressa
Gesticulei depressa
Tudo aprendi depressa
Depressa de gatas andei!
Sorri depressa
Babei-me depressa
Balbuciei depressa
Depressa minha mãe adorei!
Comi depressa
Saí à pressa
Depressa te encontrei!
Depressa gostei de ti
Depressa te perdi
Depressa te chorei
Depressa te esqueci
Depressa tantos outros amei!

Depressa comi
Depressa bebi
Depressa dormi
Depressa acordei!
Depressa cresci
Depressa vivi
Depressa amei
Depressa sofri
Depressa tudo calei!

Depressa parti
Depressa cheguei
Depressa tudo vi
Depressa tudo mudei
Depressa regressei
Depressa me encontrei
Aqui
Aqui onde agora aguardo
A morte que se apressasse
E assim morresse depressa
Antes que a morte chegasse!


Rogério do Carmo
Agadir 19/9/1989

1 commentaire:

  1. Poema cheio de força e de uma sonoridade impressionante.

    Beijo

    RépondreSupprimer