jeudi 30 avril 2009

Livres como o vento!


Ontem aconteceu-me algo que me destruiu por dentro e por fora!

Tenho um gato que adoro! Ele chama-se Pipocas.

Tenho igualmente duas varandas onde os passarinhos vêm comer à minha mão...
Tenho também um medo terrível que o meu gato os apanhe. Por essa razão, as minhas janelas que dão para as varandas estão sempre fechadas ou apenas entreabertas para deixar passar o ar e não deixar deixar o gato apropriar-se dos meus passarinhos.

Mas, ontem...

Tive um passarinho lindo, confiante, que me veio comer à mão.
Ele era apenas um bebézinho em busca de pão e de carinho...



Horas mais tarde vejo o meu gato com esse passarinho adorável na sua boca!
Tentei reanimá-lo, mas ele já não pertencia ao bando onde aprendera a voar!

Não compreendo como tudo se passou...
Talvez o passarinho tenha entrado dentro de casa, em busca de mais pão e de mim...





Chorei como um puto que acabara de descobrir as traições da Natureza!

Um dia eu disse que

"A Vida e a Morte são tão naturais como o fechar os olhos para lavarmos a cara!"

Ontem lavei a minha cara com os olhos bem abertos!
Desta vez a minha cara foi lavada por um caudal de lágrimas bem escaldantes!

Agora detesto algo que tanto amei:

O Pipocas!

À noite, sob a chuva torrencial, fui enterrar o meu querido "bebézinho" num jardim aqui perto de onde moro...

Uma vez mais tive a minha cara lavada!
Mas desta vez pela chuva e as minhas lágrimas que a chuva também lavou.

Este imenso luto vai levar-me anos a ser feito.

Odeio a Natureza!
Nunca compreenderei porquê ela é assim tão imperfeita e cruel!

Durante cinco segundos gostaria de ser Deus e assim tudo mudar!


NATUREZA MORTA

O passarinho era leve

Leve macio e amarelo

Leve como um sonho

Sonho imobilizado

Na sombra da valeta.

A prostituta passa

Passa e insinua:

É barato é barato

Eu cedo barato!

E não vê um sonho leve

Leve macio e amarelo

Fechado numa noite sem lua

E míriades de estrelas extintas

Nos seus olhos vítreos cheios de azul

E séculos de poeira

Nas asas interceptadas.

Picado voo na paisagem silenciada

Milhas de asfalto

Nas unhas recurvas

Unhas soltas do galho

Que nada mais puderam reter

Senão a imagem da morte

Que ninguém consegue entender.

O passarinho está leve

Leve frio e amarelo

Seus olhos postos em mim

E eu fingindo não vê-lo!


Rogério do Carmo

Lisboa, 24/6/1957


lundi 27 avril 2009

O Roque


O Miradouro de Mafra .

O meu Pelourinho

Quantas vezes me levantei às 5 da madrugada para ir com o Roque ver o esplendoroso nascer do Sol e as silenciosas montanhas cobertas de neblina matinal neste isolado Miradouro de Mafra...

Desde esses inolvidáveis alvoreceres, nunca mais soube nada do meu inefável Roque e dos seus belos olhos de um azul tão transparente como essas longínquas madrugadas...
Dele não me ficou - além desta inesquecível recordação - sequer uma velha foto amarelecida pelos anos que lhe passaram por cima, para eu ainda o sentir e julgar bem perto de mim...

Há tempos decidi - para com meus olhos ainda poder acariaciar essa face duma extraordinária beleza - desenhar o seu retrato, de memória, como eu sempre o recordarei...

Os resultados foram um milagre!

É ele! É a sua angelical face de anjo que veio a este mundo para me fazer amar o Belo!

Se quiserem saber algo mais desta incontável história, terão de ler o livro das minhas memórias que ando agora apaixonadamente a escrever. Uma espécie de autópsia do meu Passado...
"TUDO EM PRATOS LIMPOS"

samedi 25 avril 2009

O MEU PRIMEIRO GRANDE AMOR


O meu primeiro grande amor...

Estava eu ainda no Café Estrela, em Mafra, mesmo em frente do majestoso Convento.
Quando não tinha nada que fazer punha-me à porta a ver passar o trânsito e as pessoas apressadas.
Entre essas pessoas apressadas havia um senhora muito censurada nessa Vila...

Ela era divorciada e diziam que recebia cadetes na sua casa, que entravam pela janela do seu quarto ali no rés-do-chão, que dava para as traseiras...

Ela era muito loira, trajava sempre saias muito apertadas com uma rachinha atrás a por à vela um nadinha mais das suas belas pernas morenas.
Usava também umas camisolas de lã muito justas a porem em destaque os seus belos seios de mulher bem doada pela Mãe Natureza.

Todos os mafrenses e tropas - muito particularmente os cadetes - andavam loucos atrás dela, sempre a arrastarem-lhe a asa...

Para mim ela era uma descoberta da minha ainda então indefinida sexualidade. Ela era um Templo que eu sonhava profanar...

Ela passava como uma rainha sem trono do qual eu gostaria de ser o Rei.

Ela era muito altiva e arrogante. Diziam mal dela e ela desprezava toda a gente à sua volta!
Era como um país independente que não queria ser invadido por insidiosos assaltantes.

Eu via-a passar, seguia-a com os olhos...

Ela vinha da praça onde tinha feito as suas compras e seguia para casa para preparar o almoço do seu pai, um capitão já reformado, o Capitão Balbino. Por isso lhe chamavam a Balbina!

Essa Balbina fazia um permanente vai e vem na minha tonta cabecinha...

Um dia, ela entra no Café Estrela com a sua amiga de Lisboa, a Alice Moreira, e compram uma garrafa de vinho do Porto.

Isto foi no dia 2 de Outubro de 1948, de manhãzinha...

Intrigado, tentando passar as muralhas que me separavam dessa mulher magnífica, pergunto que iam elas celebrar?
A Alice diz-me que iam celebrar o aniversário da Balbina.

Curiosamente, também era dia do meu aniversário.

E era-o, então!

Digo-lhes alegremente:

- Tem piada! Eu também faço hoje anos!

A Alice sugere que eu venha a casa da Balbina tomar um copo e festejar ambos os nossos aniversários. Como ela disse: "matar dois coelhos duma só cajadada!"...

Nessa tarde, quando fui ao Correio comprar selos para os clientes do Café, como a Balbina morava mesmo ao lado, passo pela casa dela, bato à sua porta, e sou recebido pela minha Deusa de ignotas Mitologias!

Celebrámos. Senti-me à vontade e feliz como um rapazinho já há muito enamorado dessa Deusa, por estar ali tão perto dela e poder tocá-la...
Alem da sua boca muito vermelha, foram as suas belas pernas muito morenas que atraíam os meus olhos curiosos...

Mais tarde vim a saber que ela fazia nesse dia 33 anos e eu 13, e que o seu nome era Maria Silvina, que os amigos a tratavam por Mariazinha e, por vezes, apenas Zinha...

Desde então comecei a visitá-la todos os dias...

Eu ia ao Correio todas as tardes por volta das três e dava sempre um salto a sua casa.
A essa hora ela estava sempre a fazer a sua sesta, deitada na sua cama de mogno, com as cortinas corridas... Deixava-me sempre a porta da frente entreaberta...

Pouco a pouco comecei a também fazer uma curta sesta nos seus braços...

As nossas bocas procuravam-se, encontravam-se, e entregavam-se...

Pouco a pouco a minha boca começou a descer a tentar descobrir outras partes daquele corpo sumptuoso... a minha boca sugava aqueles mamilos enrijados por esse amor interdito...

Rapidamente as más línguas começaram a falar e ela nunca me deixou consumar o que eu tanto a medo procurava desvendar: o seu ninho de amor! Ela, para evitar que as más línguas tivessem razão, nunca me deixou lá ir desaguar nesse mar de pétalas pretas...

Como ela era divorciada e tinha de apresentar uma certidão de bom comportamento para poder reclamar a pensão do seu ex-marido, tinha de ir todos os anos ver o Capitão Lopes, o Presidente da Câmara, o qual tinha que assinar essa certidão. Um dia ela é chamada ao seu escritório e ele preveniu-a que se ela continuasse a receber menores em sua casa, ele não poderia assinar esse documento.

Desde essa data os nossos amores proibidos tornaram-se amores clandestinos!

Encontrávamo-nos secretamente no Jardim do Cerco, para um beijo furtivo. Outras vezes na Praia de São Sebastião, na Ericeira, para uns beijos mais longos e langorosos...

Outras vezes ía-mos a Lisboa para um almoço no Martim Moniz, uma matiné, e alguns beijos fortuitos, ocultos em sombrios recantos...

Frustrado, deixei Mafra e fui trabalhar para Lisboa. Ela vinha passar uma tarde comigo, de vez em quando...

Um dia o Destino apontou-me o Horizonte e envia-me para Israel, atrás de outro amor ainda mais proibido...

Nessa manhã, dia 2 de Outubro de 1960, às 5.30 da madrugada, - fazia então eu 25 anos e ela 55 - foi ela a única pessoa que me acompanhou a Santa Apolónia, para apanhar um comboio que me levaria até Marselha, onde por sua vez, abordaria um barco Turco até à Terra Santa...

Quando o comboio arrancou, depois daquele último grande beijo de amor e despedida, debruçado na minha janela do comboio, via-a desaparecer lá ao longe, pouco a pouco, acenando, engolida pelo espesso fumo da locomotiva que vagarosamente nos separava...

Através das minhas lágrimas eu adivinhava as suas, lá ao longe, no cais....

Durante esses meus seis anos em Israel, correspondemo-nos por carta. Cartas entre cartas de amor e cartas de boas maneiras.

Depois desses seis anos, volto para Portugal e a primeira coisa que fiz foi ir dar um grande beijo à minha Mãe Coragem, ao Cacém.

Depois voei para Mafra para a ter de novo nos meus braços!

Porém as coisas tinham mudado. Ela já começava a sentir o peso dos anos, e o nosso dia limitou-se a um café no Café Esplanada, um almoço no Sobreiro, e uma saltada à Praia de São Sebastião...

Mas São Sebastião já não tinha mais beijos de amor para me dar...

Depois segui para Londres, onde muitas cartas foram recebidas e outras enviadas...

Cinco anos mais tarde venho instalar-me em Paris e as cartas continuaram regularmente.
De vez em quando enviava-lhe algumas roupas da Cidade Luz, o que ela adorava.

Um dia enviei-lhe um pequeno gravador de cassetes áudio, com uma cassete já gravada com a minha voz a falar-lhe dos nossos tempos de outrora quando a vida nos sorria...

Foi numa dessas gravações que ela me fez ouvir um fado da Amália, "Disse-te Adeus e Morri", que esse fado tinha sido, imaginava ela, inspirado naquela longínqua manhã, em Santa Apolónia...

Essa correspondência via cassetes durou muitos anos.

Haviam noites, quando ela se sentia muito só, já deitada, ao meio da noite, e conversava, conversava, até a cassete acabar...

Como ela dizia, era como se eu estivesse de novo com ela, na sua cama...

Alguns anos mais tarde, já me tinha então mudado para Meudon, isto em 2003,
o meu telefone toca ao meio duma bela manhã ensolarada...

Quando respondo oiço uma voz muito embargada que me soluçou:

- Rogério, apeteceu-me ouvir a tua voz...

Era ela! Era a voz dela!

Depois, em lágrimas, contou-me que a tinham forçada a entrar num Lar e que nesse Lar não autorizavam os animais domésticos, e que ela teve de "abandonar" o seu cãozinho, que ela tanto amava!

Preocupadíssimo acerca destas horrorosas notícias, peço-lhe que me dê o número de telefone desse Lar, para eu poder estar com ela, telefonado-lhe sempre que pudesse. A sua peremptória resposta foi:

- Não vale a pena!...

Pedi-lhe várias vezes que me desse o número desse telefone, e a resposta foi sempre a mesma:

- Não vale a pena!!!

Nessa nossa última conversa ela falou dos nossos tempos volvidos, e diz-me que estava arrependida de me não ter deixado realizar-me sexualmente com ela.
Que se ela tivesse consentido, talvez eu tivesse vivido uma vida muito diferente...

Respondi-lhe que eu tinha vivido uma vida que muitos gostariam de ter vivido, que não fizesse disso um complexo de culpabilidade!

As suas últimas palavras foram:

- Rogério, sei que fui o primeiro grande amor da tua vida. Gostaria agora que soubesses que tu foste o último grande amor da minha!

E desligou!

No dia seguinte telefono à Milu, uma amiga comum nossa, em Mafra, para ver se ela tinha esse amaldiçoado número de telefone do Lar, mas a Milu tinha-se mudado!

Dois dias ou três depois, lembrei-me de telefonar ao meu irmão Elmiro, para ver se ele sabia onde era esse Lar, se ele tinha o seu número de telefone...

Quem respondeu foi a minha cunhada, a Jesus, que friamente me responde:

- Olha, o teu irmão está no Clube a jogar às cartas e a Mariazinha foi enterrada ontem!

O telefone caiu-me aos pés e as lágrimas subiram-me aos olhos. Um irreprimível grito de dor esbarrou contra a suja vidraça da minha janela fechada!

Tempos depois tomo um avião que me leva a Lisboa e um autocarro que me levaria a Mafra.

Chegado a Mafra, eis o que se depara ante os meus olhos atónitos e magoados:

O que restava desse meu Templo de Amor de outrora... Pior do que o dilúvio!!!


Pus os pés a caminho de um certo cemitério da Vila Velha...

Lá chegado, uma alma caridosa indicou-me onde era a sua sepultura...

Depara-se-me uma silenciosa campa coberta por uma pesada pedra tumular cor de rosa.

Nem uma única flor!

Apenas insultantes imitações dum imundo plástico!

Apenas um gritante silêncio e absurdas promessas de Etrenidade!

Quando me encontrei a sós com ela, sentei-me nessa fria laje e perguntei-lhe porque me não tinha ela dado o número desse maldito Lar?

Chorei como uma criança a quem roubaram o seu triciclo que lhe tinham dado pelo Natal...

Falei-lhe dos nossos tempos passados juntos a sonhando quimeras, e jurei-lhe que sempre a amaria! Até esse dia em que eu fecharia os meus olhos para de mais perto a ver!

Quando, então, mais ninguém nos poderia separar!

Ao afastar-me, recuando, cantei-lhe docemente "Disse-te Adeus e Morri"...

Certamente que, se ela me pudesse ter escutado, em surdina, me teria devolvido essa mesma cantiga ao ver-me desaparecer, olhos postos no chão, por detrás dum jazigo empedernido...

A nossa cantiga!

Essa cantiga que durante tantos anos nos uniu!

Essa cantiga que tantos anos nos tinha separado...


Disse-te Adeus e Morri...

jeudi 23 avril 2009

A Vida e a Morte


Dispendemos metade das nossas existências a termos medo da Vida e a outra metade a temermos a Morte !

Quando é que vivemos, afinal?

Recordo - quando era miúdo - em Mafra, não perceber muito bem para que tinha eu vindo a este mundo. Tinha medo do Futuro, medo da Vida, medo do absurdo de nascermos para apenas um dia deixarmos tudo o que fomos e fizemos, irremediavelmente para trás!

Tinha, sobretudo, medo de Mim! Medo da minha obsessão pelo Suicídio!

Como se a Morte fosse a única solução de todos os meus medos e ansiedades!

Por vezes cheguei a ter medo de ter Medo!

Ia à Basílica de Mafra ver todos aqueles apáticos Santos, em busca de respostas às minhas devastadoras perguntas, mas eles ficavam mudos e indiferentes, como aquele impassível e frio mármore de que foram esculpidos!

A minha adolescência foi um imensurável Martírio que certamente me fará ganhar o Céu!

Quando da morte do meu irmão Alberto - tinha ele 27 anos e eu 17 - no cemitério, quando abriram o seu caixão para lhe porem cal em cima, vi aquele belo e lívido rosto, sereno e gélido como um polar alvorecer, pelo qual tive um amor quase incestuoso. Mentalmente "jurei-lhe pela minha Vida", que iria viver por ele todos esses anos que acabavam de lhe serem roubados!

A partir desse dia decidi viver o mais intensamente possível todos esses anos que lhes foram impiedosamente negados, fazendo tudo o que inadvertidamente me passasse pela cabeça para ser feliz! Como felizes deveriam ter sido todos esses anos que o Alberto nunca chegou a viver!

Agora mesmo, ao escrever esta dissertação, continuo a pagar essa irredutível promessa!

Sempre que a Morte se acerca de mim, grito-lhe:

- Vai-te! Vai-te! Deixa-me em paz!
Tenho ainda uma grande e sagrada promessa não totalmente paga!
Estou ainda em dívida de muitas prestações


Agora já não tenho medo da Morte!

Penso por vezes que é Ela quem tem medo de Mim!

E quando Ela um dia, traiçoeiramente me agarrar, vou olhá-La bem nos olhos e clamar:

- Enfim! Que sejas bem vinda!

Enfim, vou poder reunir-me a todos aqueles que tanto amei e que me deixaram ainda neste mundo a cumprir a minha irresgatável promessa de viver por eles até ao fim!

Até ao fim, viver rindo, rindo, rindo da Vida e da Morte!

mardi 21 avril 2009

Florbela Espanca



Sempre em Mafra, tinha eu então 16/17 anos, o Café Estrela tinha sido trespassado a um casal que tinha voltado do Brasil, onde tinham feito umas economias. Eles, o Senhor Martins e a Dona Casimira, conservaram-me para apenas fazer os Pastéis de Feijão, e isto só até a Dona Casimira os soubesse confeccionar ela própria.

Entretanto, como deixei de ter o meu quarto com o Carretas lá no 2° andar sobre o Café, fui viver para casa dos meus pais, ali na Travessa da Narcisa, 5-1°-Dto., onde havia um pequeno e sombrio quarto disponível para mim.

Continuei a escrever e a fazer desenhos.

Sempre que ia à Papelaria do Victor comprar papel Cavalinho para fazer os meus desenhos, reparava naqueles cartazes que eles lá tinham à venda, com retratos de grandes escritores clássicos portugueses, como o Camilo Castelo Brando, Eça de Queiroz, e tantos outros.
Comprei o do Eça para adornar uma das paredes da minha lúgubre mansarda, de paredes nuas, ali na Travessa da Narcisa.
Um dia, por acaso, folheando esses cartazes, esbarro com um cartaz com o retrato da minha grande Florbela Espanca! A minha Musa e meu "Poço de Inspiração"!

Comprei esse cartaz e pu-lo na parede, mesmo em frente da minha cama.

Todas as manhãs, quando acordava e abria os meus olhos para mais outro dia de vida, de trabalho - muitas vezes também de frio e chuva - a primeira coisa que os meus olhos viam era a doce face da minha Florbela Espanca. Sem dar por isso, lendo os seus sonetos, vivendo com ela "a sua imensa dor", esse seu amor impossível, identificando-me seriamente com a sua poesia e nefasto sofrimento, olhando-a longamente no seu olhar distante e absorto, sem quase de nada me aperceber, apaixonei-me por ela.

Teria gostado de ser esse homem que ela tanto amou - esse talvez amor incestuoso - para lhe dar todo esse grande amor que ela suplicava e ao mesmo tempo repudiava. Como se esse imenso amor fosse um pecado ultrajante e absolutamente inacessível!

Uma tarde, sentado aos pés da minha cama, penetrando o seu olhar ausente e longínquo, dediquei-lhe um poema. Claro que tinha de ser um soneto!

OLHAR ALENTEJANO

Para quê procurar nos teus olhos alongados,
nos teus olhos negros, húmidos, esmorecidos,
os poemas que anseio, belos e perfumados,
como tantos outros que esqueci, desiludidos.

Não vejas meus olhos que te perseguem,
não creias nas promessas, nos seus fluídos,
peço aos teus olhos tristes que não me roguem
nessa súplica pungente de esquecidos.

Amo os teus olhos belos e tristes como os meus
e queria uni-los e erguê-los, sublimes, aos céus,
e amar a tua dor beijando a tua boca.

Mas mórbido, em nosso mundo incompreendido,
eu ando desvairado a procurar teu olhar perdido
nos meus olhos, na minha cabeça louca!

Mafra, 16 de Setembro de 1953

lundi 20 avril 2009

Rogério Paulo

Talvez uma das mais apaixonantes recordações da minha vida, o meu encontro com Rogério Paulo!

Tudo começou em Mafra. Trabalhava eu no Café Estrela. Tinha eu talvez 18 anos...

Um belo cadete vinha tomar um café ou um refresco quase todos os dias ao Café.
Ele impressionou-me pela sua beleza e simpatia que irradiava. Ambos gostávamos de conversar e trocar impressões sobre diversos temas.


Rogério Paulo admirava-me pelo meu geito para o desenho:

No Jardim do Cerco ele pedia-me para eu recitar alguns dos meus poemas para ver qual de nós o recitaria melhor. Era uma grande aventura todas estas nossas fantasias e competições!

Demos grandes passeios pelo Jardim do Cerco e as nossas conversas eram sempre Teatro!

Uma bela manhã ele entra no Café, muito excitado, dizendo-me que ia a Lisboa assinar um contracto com o Arthur Duarte para o filme "A Garça e a Serpente", com a Teresa Casal.

Que ia deixar a tropa e a Unviersidade e entregar-se todo ao Teatro e ao Cinema!

Depois dum bom Café e um grande abraço, ele despede-se a correr, para ir apanhar a camioneta do Sardinha que o levaria até Lisboa, para começar a ser o que ele mais queria ser: actor!


Ao sair da porta, voltou-se para mim e exclamou:

-Rogério, ainda um dia nos haveremos de encontrar ambos sobre um palco em Lisboa!

Deixei-o partir, convencido de que isso nunca aconteceria!

Anos mais tarde sigo para Lisboa para trabalhar na Tentadora, ali na Silva Carvalho, a Campo de Ourique.
Tempos mais tarde ainda, como o patrão, o senhor Luis Ferreira abriu um Snack-Bar para os lados do Areeiro, fui para o Tique-Taque, ali na avenida de Roma.

Aí comecei a publicar poemas no Diário Popular, na "Antologia de Revelações", vários, todos obtendo boas críticas escrever para a Revista Turismo


a fazer figurações na com o Nuno Fradique.

O Nuno achou que eu tinha boas idéias para a encenação dos seus "Programa de Variedades", todas as quartas-feiras, para poetisar as imagens, e assim comecei a trabalhar como seu assitente.

Várias vezes entrei em curtos filmes. Conheci alguns actores, como a Helga Liné

e o Pedro Pinheiro.

Foi com o Pedro que ambos começámos uma carreira como actores em vários filmes curtos para a acabada de nascer televisão portuguesa!

Paz à sua alma!

Um dia Arthur Duarte propõe-me um pequeno papel no seu filme "Encontro com a Vida"

Tinha que estar uma manhã, muito cedo, numa garagem por detrás do Diário de Notícias

e eu lá estaria, sem falta!

Nessa manhã Arthur Duarte explica-me o que estava previsto ser feito. Que eu tinha que ir encher de gasolina o depósito dum carro e que, depois, o actor principal do filme me chamaria e me perguntaria: "Você conhece aquele senhor".
Deu-me uma folha de papel com o curto diálogo e depois fomos tomar o pequeno almoço num Café ali perto.
Quando voltámos a essa garagem, filmamou-se a tal curta cena. Quando o tal actor me chamou e me pergunta: "conhece aquele senhor"...

Santo Deus! Era o Rogério Paulo!

Fizemos a cena. Nenhum de nós se desmanchou. Mas quando o Arthur Duarte gritou:

- Corta!

Caímos nos braços um do outro!

Então ele diz-me:

- Rogério. Tás a ver que eu tinha razão?

Respondi-lhe que aquilo ali não era nenhum palco!
E ele respondeu-me que o palco ficaria para mais tarde!

Depois seguimos para os Estúdios do Lumiar

para fazermos a dobragem do diálogo Eu acertei às primeiras essa breve dobragem. O Rogério Paulo atrapalhou-se e teve de repetir três vezes!

O Arthur Duarte vocifera:

- É pá! Então este novato acerta à primeira cacetada, e tu, um actor profissional, tás-me a fazer a vida negra?!

O Rogério Paulo atira:

- Arthur, este novato ainda te vai surpreender com o seu talento!
Um dia vais-lhe dar um grande papel num dos teus filmes!O que realmente aconteceu!

Mais tarde, quando já estava no Kibbutz Beit Hashita, e a Dona Alice, a patroa da Pensão onde me encontrava hospedado, ali na Sacadura Cabral, me enviava o meu correio, uma dessas cartas era do Arthur Duarte, a propor-me um papel num filme que ele ia realizar no Brasil. Não sei que título, não sei mesmo se esse filme chegou a ser realizado.

Tempos mais tarde, Rogério Paulo estava a a trabalhar no Monumental, com o Vasco Morgado e Laura Alves. Encontrávamo-nos casualmente no Café Monte Carlo para um café e dois dedos de conversa. Uma dessas vezes, na prsença do Paulo Renato, ele propõe-me eu ir recitar três dos meus poemas numa "Matiné de Poesia", um Domingo, no Teatro Monumental.

Eram vários poetas a participarem.

Como lhe tinha contado acerca do meu poema "Cais do Sodré", ele pede-me que diga esse poema e mais dois à minha escolha. Escolhi "Grito Calado" e "Uma Noite Um Filho", poemas que sabia tê-lo impressionado. Desses três poemas que decorei, apenas me lembro do "Cais do Sodré", que muitos, muitos anos mais tarde, iria ser interpretado - telefonicamente - pela grande Carmen Dolores!

Um dos meus grandes sonhos de adolescente - num programa de rádio, em Mafra, quando do lançamento do meu livro de poemas "Vagas"!

O grande problema foi que eu habitava então na Sacadura Cabral e, nesse Domingo muito especial, vou a pé, de casa até ao Saldanha

a repetir os meus três poemas, mas o medo era tanto, de pela primeira vez subir a um palco e enfrentar um vasto público, que me borrei pelas pernas abaixo, e tive de voltar a casa para tratar do assunto, mas a Dona Alice não tinha ainda engomado a minha roupa, e disse-me que tivesse juizo e me deixasse de fantasias!

Aí foi a morte do meu grande sonho de fazer Teatro com o Rogério Paulo!


Um dos nossos grandes sonhos dos seus tempos de tropa como cadete, em MAFRA!

Algumas semanas depois parti para Israel e abandonei talvez uma grande carreira como actor. Mas fui para Israel para correr mundo e viver uma vida repleta de fantásticas aventuras! Uma vida que muitos gostariam de ter vivido!

Andei e ando lá por fora há quase 50 anos, e cada vez que eu ia a Lisboa, ia tomar um copo com ele ao Dona Maria II e falar de teatro, projectos futuros, dificuldades financeiras, autores a serem representados, e invejas e intrigas internas nesse Teatro, que ele então dirigia...

Ele dizia-me que eu tinha feito uma grande burrice de ter deixado Portugal, que

- "hoje podias ser um grande actor!"

Respondi-lhe que vivi a vida que eu mais queria ter vivido: Viajar! Conhecer outros países, outras línguas, outras culturas, outros Teatros!

Depois estive muito tempo sem o ver em Lisboa e, um dia, em Paris, soube da sua morte!

Uma raiva feroz subiu por mim acima!
Não estava certo! Ele era ainda tão jovem e tinha tanto talento!

Credulamente, cerrei os olhos e sussurrei-lhe:

- Rogério! Meu querido Rogério!

Um destes dias ainda nos iremos encontar lá em cima das núvens, a fazermos o nosso teatro para que todos os pecadores que nos venham do Purgatório, só para nos verem e ouvirem! E os Anjos também lá estarão!!!

E isso ninguém nos vai poder impedir !!!




dimanche 19 avril 2009

מאוד אוהב את הספה שלנו

Nunca esquecerei a minha professora de Hebraico - a bela Ruti, com a sua densa cabeleira negra como uma noite sem lua - quando, no Kibbutz, no dia 10 de Abril de 1961, andávamos todos loucamente apaixonados por ela.

Ela vinha quase sempre tomar um café comigo no meu quarto, nos intervalos das aulas, e eu adorava ouvir aquela voz grave, muito sensual, daquela boca ainda em flor.



Eu tinha então 25 anos e ela 29. E as nossas vidas ainda quase todas à nossa frente...

Ainda hoje penso nela...

De vez em quando envio-lhe um mail que, desde que ela se soube víctima duma doença grave, raramente responde...

A última vez que a vi, aqui há uns três anos atrás, ela ainda estava linda e a sua voz entrava em mim como uma inefável carícia...
Quando lhe disse que, nesses belos tempos de então, nós andávamos todos apaixonados por ela, ela, num sorriso quase ausente, sussurrou-me nostalgicamente :

- Eu também! Por alguns de vocês...

Ela que ainda hoje guarda os meus primeiros textos poéticos em Hebraico, que pus nas suas brancas mãos, antes de deixar Beit Hashita, para seguir o meu destino que me aguardava impacientemente em Tel Aviv...

Que absurdo ser-se belo e, depois, com o passar dos anos, tudo e todos nos abandonarem...

Daí eu agora agarrar-me desesperadamente às minhas belas recordações desses longínquos tempos, essa inexplorável caixa de Pandora, esse poço sem fundo onde continuamente atiro a minha fateixa, em busca de perdidos tesouros que ainda procuro recuperar, nem que seja apenas por alguns efémeros momentos...

Efémeros momentos que valem uma vida inteira!

Como me disse um dia a Carmen Dolores:

"Fazer do Passado Presente"!

Antes que um certo amanhã não chegue cedo demais...

Entretanto, que saudades desses tempos em Beit Hashita, da bela Ruti que me ensinou o Hebraico, das cantigas e danças que aprendi todos os Sábados à tarde...

Shabbat Shalom!


A minha muito especial ternura pelo meu irmão Zé


Fui o último rebento de uma ninhada de 8 filhos da Laura e do Alberto.
Minha mãe chamava-me o seu Cúcio...
Nunca soube exactamente o que queria dizer cúcio, mas parece-me que era "o último da ninhada"...

Como ela me disse um dia: Eu era o último mas..."de primeira apanha"!

O Zé Manel foi o primeiro macho da fornada. Primeiro veio a Lila, depois o Zé. Eu sempre gostei muito do Zé, desde aqueles tempos em Lisboa, na casa da tia Judite, ali na Cruz de Soure, quando ele era um bonito rapaz e namorava a nossa querida Maria do Carmo.


Mais tarde, já na Fábrica das Malhas, no Cacém, quando eu lá trabalhava, haviam igualmente o meu irmão Carlos e o Fernando. Éramos quatro irmãos na mesma casa. Todos Carmos! A Maria do Carmo tratava de todos nós: cama, mesa, e roupa lavada.

Eu chamava-lhe a Maria dos Carmos...

Ela era linda, com seus olhos dum azul muito azul e transparente, e aquele bonito largo sorriso a cobrir-lhe toda a sua bela face, permanentemente...

Ela chamava-nos "a sua tropa"! Éramos quatro magalas muito jeitosos. O Zé parecia-se com o actor, então muito em voga, Tyron Power. O Fernando era giro, e o Carlos também bonitão.

Eu era, mesmo "sem retoques", nada de deitar fora!


Depois havia a Lurdinhas, a filha deles, que era como um anjinho que nos tinha caído do céu, e que muito frequentemente vinha aterrar nos meus ombros...

Foram uns tempos tão felizes, esses tempos de outrora...

Uma ternura muito especial pelo Zé, chegou-me quando perdemos a nossa saudosa Maria dos Carmos, e quando ele, no meu Recital de Poesia, em Mafra, sentado na primeira fila, os seus olhos se encheram de lágrimas quando eu disse poemas que falavam da minha infância e da nossa querida Mãe Coragem...

Assim como eu choro cada vez que oiço o fado da Amália que eu cantava de regresso do mercado, com a Maria dos Carmos...

"Não sei Porque te Foste Embora"

vendredi 17 avril 2009

Reencontro Com a Infância


Gostaria de contar esta história incrível!

Nos meus tempos da Rua do Arco do Carvalhão, ali mesmo ao pé do Aqueduto das Águas Livres, viviam meus pais em casa da minha Tia Arminda, nessa casa que tinha sido o ninho de amor dos meus pais depois do casamento.


Eu tinha três anos...

Nós vivíamos no 53- 1° Esquerdo dessa rua. Ao lado viviam os nossos vizinhos, a Isabel Capitoa e Senhor Alfredo. Eles tinha três filhas: Era a Manóia, a mais nova e muito vivaça; a Alice, a mais bela das três, que tinha falecido muito jovem; e a Fernanda, a mais amorosa de todas.

Era ela, a Fernanda, que, à noitinha, me sentava no seu colo, me embalava e me adormecia. Era ela que me levava nos seus braços até ao meu quarto em casa da Tia Arminda, me despia e me aconchegava no meu leito.

Ela trabalhava no Jardim da Parada como guarda das retretes das Senhoras.


Eu adorava fugir de casa e ir a pé, do Aqueduto até ao Jardim da Parada, ali a Campo de Ourique, para brincar com outros miúdos. Ela tricotava o tempo todo, mas os seus olhos seguiam-me constantemente pelo jardim, a tomar conta de mim, que eu não fizesse asneiras.

Ela era o meu Anjo da Guarda.



Cresci com elas durante alguns anos, mas depois os meus pais voltaram para o Sobreiro e segui a minha vida como pude. Nunca mais as vi durante muitos anos.

Depois desses muitos anos, um dia pergunto ao meu irmão mais velho se ele sabia onde paravam a Manóia e a Fernanda. Ele diz-me lhe parecia que elas tinham casa no Sobreiro, que quando eu fosse ao Sobreiro rever a Casa da Brasileira, onde eu nascera, que entrasse na Farmácia mesmo ao lado, que perguntasse à Dra. Nelinha se ela sabia algo.

Fui ao Sobreiro e fui dar um beijo à Casa da Brasileira. Depois entrei nessa Farmácia e perguntei a uma senhora que me veio atender, se ela era a Dra. Nelinha, e se conhecia a Manóia e a Fernanda?

A Dra. Nelinha diz-me que sim, que as conhecia muito bem!

Quando lhe pergunto onde é que elas moravam, ela responde:

- Olhe! Ali mesmo em frente! É só atravessar a estrada!

Atravessei a estrada a correr - quase que fui atropelado!



Parei em frente de um portão de uma vila e vejo uma senhora a tratar do jardim.

Do portão pergunto-lhe se ela conhecia a Manóia e a Fernanda.

Ela responde:

-Eu sou a Manóia! Quem é o senhor?

Comecei a falar do Carvalhão, da Isabel Capitoa, da Tia Arminda...



A Manóia, muito intrigada, aproxima-se do portão, olha-me alguns instantes, e exclama:

- Olha o Rogério!

Caímos nos braços um do outro! Ela convida-me a entrar, para fazer uma surpresa à Fernanda, que estava na cozinha.

Quando a Fernanda me viu, olhou-me atentamente durante um minuto e, atónita e muito surpreendida, grita:

- Ai o Rogério!

Caímos uma vez mais nos braços um do outro! Ambos chorámos, muito agarrados, como se tivéssemos, repentinamente, voltado ao passado!



Depois duma refeição, fomos para a sala falar de coisas que nunca tinham sido verdadeiramente esquecidas!

Este dia, este reencontro, foi um dos mais felizes da minha vida. Eu tinha, subitamente reencontrado a minha infância!

Eu tinha então 74 anos e elas, a Manóia 81, e a Fernanda 85. Estivemos 66 anos sem sabermos nada uns dos outros!

Sentado no sofá, quase ao colo da Fernanda, tive vontade de novo lhe adormecer nos braços e que ela fosse outra vez deitar-me na minha caminha, na casa da Tia Arminda, no Carvalhão, e eu ter outra vez 3 anos...